Comentando a série “Expresso do Amanhã”

A série “Expresso do Amanhã” (original Snowpiercer), lançada pela Netflix em 2020, é baseada no filme homônimo, que foi dirigido por Bong Joon Ho (que ficou famoso por dirigir “Parasita”, vencedor do Oscar desse ano).

A história parte de um cenário pós-apocalíptico, em que a humanidade congelou o planeta ao tentar resolver o aquecimento global e falhar miseravelmente. Só sobreviveram os passageiros nos 1.001 vagões do trem “Snowpiercer”, idealizado e liderado pelo milionário Senhor Wilford. O gerenciamento cotidiano é feito por Melanie, personagem da vencedora do Oscar Jennifer Connelly , com uma atuação que dá muitas nuances e sustenta boa parte das cenas mais interessantes.

Acompanhamos a trama da literal luta de classes. A 1ª classe é a dos milionários do mundo que pagaram por caríssimos ingressos à beira do colapso congelante para entrarem nos vagões de alto luxo e ali se salvarem, vivendo em ócio, diversão e todo tipo de ostentação possível. Tudo isso precisa de empregados, né? A 2ª classe é composta por aqueles que pagam sua estadia com trabalhos variados (engenheiros, profissionais de educação, saúde, etc.) e ficam com vagões intermediários. São proibidos de adentrar os vagões de luxo, salvo para servir a 1ª classe. Não têm acesso aos luxos, mas vivem com certo conforto. Quem não vive com conforto você já adivinhou, né? A 3ª classe é composta por trabalhadores braçais (faxina, segurança, cozinha, mecânica, prostituição etc.), que vivem em vagões sujos, aglomerados em condições de escuridão e falta de itens básicos de conforto. Não podem acessar os vagões das classes mais ricas, salvo para fazer reparos e prestar serviços.

Mas não acabou por aí. Temos ainda o pessoal que entrou no Snowpiercer como “penetra”, na hora do caos e desespero para tentar se salvar da morte pelo frio. Ficaram amontoados na cauda do trem, vivendo em condições de imundície, tortura e fome. Chegaram a ter que praticar canibalismo nos primeiros meses, já que as outras classes não admitiam sequer enviar-lhes comida. A cauda não tem opções de trabalho, sendo submetida a constantes violências por parte da administração do trem.

Interessante que o trem viaja sem parar dando a volta à Terra, sendo que, a cada volta completa, eles chamam de “uma revolução”. Em inglês faz sentido e a brincadeira com as palavras dá ainda mais camadas ao roteiro. A Melanie inclui em todos os seus comunicados aos passageiros “esse é o Snowpiercer e essas são as nossas revoluções”.

Essa é a história da revolução da cauda e da 3ª classe, levados ao limite pelas injustiças e violências diárias ao longo dos 7 anos dentro do Snowpiercer.

É também a história da disputa por poder dentro da 1ª e da 2ª classes, com intrigas e rupturas dentro dos diferentes interesses dentro da elite – nenhum deles em favor de mais igualdade, bem entendido.

Não quero dar spoilers, mas recomendo muito essa série para meus colegas e alunos do Direito e das Ciências Sociais e Humanas. Dá margem a muitas reflexões e discussões críticas sobre justiça, ética, política e direitos.

Publicado por Érica Rios

Professora de Direito, pesquisadora interdisciplinar e palestrante. Mestra e Doutora em Políticas Sociais e Cidadania (UCSal). Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Conflitos, Estados e Direitos Humanos (NP CEDH) Membro da Comissão de Direitos Humanos do Instituto de Advogados da Bahia (IAB) Membro da International Law Association (ILA)

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